"...tinha vontade de fazer um embrulho de mim, com papel de seda, lacinho de fita, e mandá-lo pra você. Aceita?"

Clarice Lispector

domingo, 25 de julho de 2010

Crueldade


Não

Não és tu que voltas
Nem é a ti que reencontro

É a minha memória
Que ainda te não deitou porta fora

A ti nunca te conheci
Assim
Como
Hoje
És

Nem eu sou o que fui

Hoje sou outro
Sou diferente

Tu és o passado
Eu sou o presente

Nós nunca nos conhecemos
E dificilmente nos voltaremos
A conhecer

Nem vamos reiniciar
Nada de novo
Não importa chorar

Agora
És só um filme
Uma reposição
Em que o matraquear da máquina
Manual
É o bater do teu coração

Um filme que revejo
Na pequena sala de cinema
Da minha lembrança
Lançada na obscuridade

Pediste-me a verdade
Sem fantasia
Dou-te a crueldade
Da poesia

(Henrique Pedro)

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